Diário de São Paulo
Data: 07 de Outubro de 2003
Infarto mata mais mulheres que câncer de mama
De cada 26 mulheres que morrem no país, oito são
vítimas de ataque cardíaco e apenas uma de tumor
Com a velha idéia de que as doenças cardiovasculares atingem
principalmente os homens, a população feminina está se esquecendo de
cuidar do coração. O resultado se reflete no assustador número de
mortes em decorrência de ataques cardíacos e derrames cerebrais no
Brasil. O alerta foi dado por médicos que participaram, na semana
passada, em Salvador, do 58º Congresso Brasileiro
de Cardiologia. De cada 26 mulheres que morrem no país, oito são
vítimas do infarto, enquanto apenas uma morre em decorrência do câncer
de mama.
“O infarto mata mais do que esse tipo de tumor. Está na hora de as
mulheres começarem a se preocupar com o coração”, avisa o
cardiologista Antonio Carlos Carvalho, professor da Universidade Federal
de São Paulo (Unifesp). De acordo com o especialista, a realidade de
cinco anos atrás é muito diferente da de hoje. “Antes, de cada 10
infartos, nove atingiam o sexo masculino e somente um o feminino. Agora,
essa proporção é de seis homens para quatro mulheres”, afirma.
Causas
Para o cardiologista Raul Dias dos Santos, médico assistente da
unidade clínica de dislipidemia do Instituto do Coração (Incor), a
situação é explicada por uma série de fatores, que vai desde o
descuido da mulher até a terapia de reposição hormonal (TRH). “A
mulher passa metade da vida indo ao ginecologista, mas não se submete a
uma avaliação dos riscos cardiovasculares”, diz.
Após a menopausa, a chance de um ataque cardíaco é bem maior, pois
a mulher deixa de contar com a chamada proteção hormonal. “O infarto
costuma se manifestar na população feminina dez anos mais tarde que
nos homens, exatamente por causa dos hormônios”, comenta Santos.
O especialista acredita que o uso da TRH contribuiu para o aumento no
número de mortes decorrentes das doenças cardiovasculares. “Por
muito tempo, os médicos achavam que o tratamento protegia o coração
das mulheres. Mas estudos recentes mostraram o contrário”,
acrescenta.
Estilo de vida
A preocupação com a mulher e as doenças cardíacas não é
exclusividade do Brasil, onde 300 mil pessoas morrem a cada ano por
causa do coração. O Dia Mundial do Coração, por exemplo, comemorado
no último dia 28, foi direcionado à população feminina. Segundo
Carvalho, a idéia do tema foi chamar a atenção das mulheres para o
controle precoce dos fatores de risco do infarto e derrame. “Se a
mulher controlar a obesidade, o fumo e a pressão alta ainda jovem,
certamente vai reduzir as chances de um ataque cardíaco”, ressalta.
A exposição da população feminina a estes fatores deveu-se
principalmente à entrada da mulher no mercado de trabalho e ao seu
comportamento, que está cada vez mais parecido com o dos homens.
“Elas estão fumando mais, trabalhando mais, se estressando mais e o
que é pior, tudo em dobro, pois ainda tem a casa para cuidar”, lembra
Santos. O médico sugere que as mulheres solicitem, mesmo que para seu
ginecologista, testes de glicemia, pressão arterial e colesterol.