Folha de São Paulo

Data: 23 de julho de 2004

Tratamento de DAOP pode prevenir infarto 


Dores, desconforto e formigamento nas pernas podem indicar mais do que um problema muscular: podem ser sintomas da doença arterial obstrutiva periférica (DAOP), distúrbio caracterizado pela obstrução das artérias dos membros inferiores e que pode atingir 6,5% da população brasileira, segundo pesquisa inédita feita pela Sociedade Brasileira de Cardiologia-Funcor com 1.200 pessoas de 70 cidades.

"Esse percentual pode estar subestimado, já que mesmo pessoas assintomáticas podem ter o distúrbio", diz o cardiologista Raimundo Marques do Nascimento Neto, diretor-executivo da SBC-Funcor. Muitas vezes confundida com um reumatismo, a DAOP deve ser investigada com cautela, pois, segundo Nascimento, 60% dos pacientes que sofrem do distúrbio apresentam "um elevado risco de sofrer um infarto ou um AVC (acidente vascular cerebral)".

Dos possíveis portadores de DAOP (os 6,5% identificados na pesquisa), 41% têm 50 anos ou mais, 76,9% não praticam esportes, 38,5% fumam ou já fumaram, 48,7% têm pressão arterial alta e 14,1% possuem colesterol elevado ou diabetes. Por isso, diz Nascimento, "pessoas com mais de 40 anos ou que se encaixem em um desses padrões devem procurar um especialista".

O exame tornozelo-braquial, que detecta a DAOP, consiste em tirar a pressão arterial dos braços e das pernas do paciente. "Qualquer cardiologista pode fazê-lo, mas essa prática não é muito difundida aqui", conta Marcia Makdisse, que, chefe do setor de cardiogeriatria da Unifesp, já treinou cardiologistas em mais de 70 centros de saúde ligados à SBC-Funcor. "A idéia é que os médicos passem a buscar de forma ativa esse diagnóstico, já que dois terços dos pacientes não apresentam sintomas", diz ela. De acordo com a médica, mudança de hábitos e o uso de medicamentos "podem reduzir em 47% o risco de morte por doenças cardíacas e de um AVC". O próximo passo da SBC-Funcor é aplicar um questionário e realizar exames em 2.500 mil pessoas para "criar a primeira base brasileira para cálculo da incidência do distúrbio", segundo Nascimento

 

ANTONIO ARRUDA 
free-lance para a Folha